O papel da Memória na aprendizagem de uma Segunda Língua

Ao aprendermos uma nova língua, envolvemos dois tipos de memória neste processo: a explícita e implícita. Vem entender o que são elas e como estão relacionadas!

O papel da Memória na aprendizagem de uma Segunda Língua

Já parou para pensar no quanto exercitamos nossa memória quando estamos aprendendo uma língua?

Para conseguir nos comunicarmos em um novo idioma, precisamos memorizar incontáveis estruturas gramaticais e uma imensa variedade de vocabulários.

É por isso que, conforme apontam alguns estudos, a aprendizagem de línguas ajuda a melhorar as habilidades de pensamento e memória das pessoas.

Além disso, aprender um segundo (terceiro ou quarto) idioma, trabalha diferentes tipos de memória, como você vai descobrir neste artigo. Continue lendo para entender a diferença entre aprendizagem e aquisição de língua e conhecer o papel da memória neste processo.

Aqui você vai descobrir também:

Diferença entre aquisição e aprendizagem de língua
Aquisição de língua
Aprendizagem de língua
Aprendizagem implícita e explícita
Memória e Aprendizagem
Tipos de Memória
Memória explícita e Memória implícita
O papel da memória na aprendizagem de uma segunda língua

Boa leitura!

Diferença entre aquisição e aprendizagem de língua

Para Krashen, renomado linguista e pesquisador, o conhecimento linguístico resulta de dois processos: a aquisição e a aprendizagem.

Qual a diferença entre adquirir uma nova língua ou aprendê-la? Continue lendo para descobrir.

Aquisição de língua

A aquisição de uma nova língua é um processo subconsciente, isto é, que ocorre sem percebermos de maneira consciente. Trata-se da internalização natural da linguagem, comum na infância tanto para a língua materna, quanto outras línguas.

Portanto, emprega-se o termo aquisição da linguagem para se referir ao modo no qual as habilidades linguísticas são internalizadas em nossa memória sem que façamos esforço consciente para tanto.

Ou seja, a aquisição da língua se dá quando memorizamos estruturas gramaticais e vocabulários de modo natural, sem atenção consciente das formas linguísticas.

Aprendizagem de língua

Já a aprendizagem, por sua vez, é um processo consciente característico da internalização formal da linguagem (não natural como ocorre na aquisição).

A internalização formal de um idioma acontece por meio de feedbacks, correção de erros e aplicação de regras.

Diferente da aquisição (que é típica das crianças), a aprendizagem é mais comum para os adultos. No entanto, isso não implica que os adultos não possam se aproveitar da aquisição de uma nova língua.

Porém, ao contrário do que você deve estar concluindo após a leitura dos tópicos anteriores, aquisição e aprendizagem, apesar de possuírem processos distintos, não são coisas diferentes.

Isso porque, segundo a psicologia cognitiva, a aquisição da linguagem é um tipo de aprendizagem implícita. Entenda a seguir o que é aprendizagem implícita e explícita para compreender melhor esses processos.

Aprendizagem implícita e explícita

Até aqui você aprendeu que aquisição da língua é a aprendizagem implícita, que ocorre de forma subconsciente, enquanto a aprendizagem se dá de maneira consciente, sendo assim, considerada explícita.

Enquanto a aprendizagem explícita (ou consciente) tem a atenção como elemento importante na sua formação, a implícita se dá independentemente das tentativas conscientes. Essa aprendizagem é ativada inconscientemente e é difícil de ser verbalizada.

Para os psicólogos Eysenck e Keane, a aprendizagem implícita se dá quando falta ao aprendiz a percepção consciente do que foi aprendido. Ou seja, o indivíduo aprende mesmo inconsciente do ato de aprender e, também de forma inconsciente, lança mão do conteúdo aprendido.

É o caso do aprendizado da língua materna ou de aprender a andar de bicicleta. Você não se lembra de tudo o que aprendeu para falar ou andar de bicicleta, você simplesmente fala e anda de bicicleta.

Alguns estudiosos afirmam que grande parte da aprendizagem é implícita, ao passo que sabemos de várias coisas das quais não somos capazes de explicar ou descrever o que sabemos.

Ainda, é importante saber que a aprendizagem implícita pode acontecer independente da idade, do desenvolvimento, da cultura e da instrução formal do indivíduo, ao passo que a aprendizagem explícita também pode ocorrer nesses contextos, porém de maneira não tão eficiente.

Outro ponto que vale destacar é que a aprendizagem implícita produz efeitos mais duradouros e tende a ser mais consistente do que os aprendizados que foram absorvidos de forma explícita e isso tem relação com os diferentes tipos de memória que os indivíduos possuem, como você já vai descobrir.

Quer dizer, em situações que afetam a aprendizagem, como a amnésia, os aprendizados implícitos tendem a resistir, enquanto os explícitos normalmente são afetados.

A aquisição de língua materna, que ocorre na infância, fora de um ambiente formal de aprendizagem, é uma forma de aprendizagem implícita que está retida na memória implícita.

A criança não sabe verbalizar como e quando aconteceu o processo de aprendizagem, nem precisa fazê-lo: basta abrir a boca e falar para evidenciar que o aprendizado aconteceu.

Agora que você já sabe o que é e como funciona a aprendizagem implícita e explícita, vamos juntos descobrir o papel da memória para a aprendizagem de uma nova língua. Continue lendo!

Memória e Aprendizagem

O papel da memória é codificar, administrar, arquivar e recuperar experiências e informações armazenadas em nosso cérebro.

Juntas, a memória e a aprendizagem lidam com a capacidade do cérebro de se adaptar e responder às experiências e situações às quais somos expostos.

Enquanto a aprendizagem ocupa-se da forma como a experiência altera o cérebro (neuroplasticidade), a memória concentra-se na maneira como essas mudanças são armazenadas e posteriormente ativadas (conexões sinápticas).

Como você deve ter notado, elas são intimamente relacionadas. A modificação de uma acarreta a modificação da outra. É como se elas andassem de mãos dadas: o movimento de uma, implica no movimento da outra.

Ilustração de duas pessoas representando a memória e aprendizagem andando de mãos dadas
Memória e aprendizagem andam de mãos dadas.

Assim, não há memória sem aprendizagem anterior e toda aprendizagem necessita do envolvimento de um sistema de memória. Existe, portanto, reciprocidade entre elas: a aprendizagem “alimenta” a memória e esta por sua vez organiza e sistematiza as aprendizagens.

Tipos de Memória

Como foi falado anteriormente, existem diferentes tipos de memória, como:

  • Memória de curta duração: retenção temporária de pequenas quantidades de informações durante curtos períodos de tempo.
  • Memória de trabalho: normalmente confundida com memória de curto prazo, todavia é mais complexa. Ela mantém e manipula temporariamente as informações; grava e processa informações; está ligada à atenção, entre outras características.
  • Memória de longa duração: sistema ou sistemas que servem de base à capacidade de armazenar informação por longos períodos de tempo. Subdivide-se em memória declarativa/explícita e não declarativa/implícita, de acordo com o conteúdo armazenado. Sobre elas, veremos com mais profundidade no próximo tópico.

Memória explícita e Memória implícita

A memória explícita pode ser acessada intencionalmente, tanto com base na recordação de eventos pessoais – memória episódica – ou de fatos – memória semântica.

A memória implícita é aberta à evocação por meio do desempenho, no lugar de lembranças ou reconhecimento consciente. É o exemplo da criança que abre a boca e simplesmente fala, sem ter que consultar a memória para lembrar como se pronunciam as palavras.

As informações contidas na memória explícita podem ser verbalizadas pelo indivíduo, que possui acesso consciente a elas e, por isso, é capaz de declará-las. O mesmo não acontece com as informações da memória implícita.

Os conteúdos retidos na memória implícita não são facilmente verbalizados, como as habilidades motoras (lembra do exemplo de andar de bicicleta?).

Simplificando: os conteúdos da memória explícita são acessados por meio da lembrança consciente (você pensa: como é que eu faço isso? E se recorda), enquanto os conteúdos da memória implícita são acessados por meio do desempenho (você simplesmente faz).

Quer saber como isso tudo se aplica ao aprendizado de uma nova língua? Leia o próximo tópico!

O papel da memória na aprendizagem de uma segunda língua

Agora que você já sabe a diferença entre aprendizagem explícita e implícita, sabe como as memórias são acessadas, vamos ver agora sobre o papel da memória na aprendizagem de uma segunda língua.

Para o neurocientista, Michael T. Ullman, cujo campo de pesquisa é a relação entre linguagem, memória e cérebro, tanto a primeira quanto a segunda língua são adquiridas e processadas por sistemas cerebrais conhecidos por funções não exclusivas ao material linguístico.

Segundo ele, o sistema de memória declarativa (explícita) é responsável pelo armazenamento do conhecimento lexical (vocabulário), e o sistema de memória de procedimento (implícita) é responsável pelas habilidades gramaticais (estruturas linguísticas).

Entenda como funciona a relação entre a memória e a aprendizagem da língua!
Entenda como funciona a relação entre a memória e a aprendizagem da língua!

A memória implícita é responsável pela:

  • aprendizagem de coisas novas;
  • controle motor;
  • habilidades cognitivas;
  • hábitos.

Ela envolve a capacidade de fazer determinada tarefa, mas não a capacidade de explicitar como fazer essa tarefa.

Como as estruturas gramaticais são armazenadas nessa memória, muitas vezes conseguimos falar uma sentença perfeitamente, embora nem sempre saibamos explicar as regras sintáticas que permitiram a construção de tal sentença.

Essas duas memórias, a explícita e implícita, interagem de diversas formas e se complementam na aquisição de um mesmo conhecimento, ou de um conhecimento análogo.

É importante frisar que, tratando-se da aquisição de uma língua, seja a materna ou uma segunda língua, as memórias explícita e implícita interagem competitivamente e cooperativamente.

Por exemplo, crianças em fase de aquisição da língua materna primeiro aprendem formas de se expressar via memória explícita e, gradualmente, a memória implícita adquire o conhecimento gramatical subjacente, que diz respeito às regras e combinações.

Percebe-se assim, que para Ullman, as funções lexical (vocabulários) e gramatical (estruturas linguísticas) são separáveis e dependem de sistemas de memória não exclusivos para a linguagem.

De acordo com o neurocientista mencionado, em geral, adultos conseguem ter um bom desempenho na aquisição lexical da segunda língua, que depende da memória explícita, mas não ocorre igual proficiência nos aspectos gramaticais, que dependem da memória implícita.

Adultos aprendizes de uma segunda língua normalmente recorrem à memória explícita e dependem dela para armazenar os vocabulários e estruturas linguísticas.

No entanto, com a proficiência na língua, a memória implícita torna-se capaz de adquirir tanto conhecimento gramatical como na aquisição da linguagem materna, que se dá ainda na infância.

Existem outros modelos e teorias sobre a aprendizagem de línguas, sendo essa uma das mais aceitas pelos estudiosos e teóricos da linguística.

Agora que você entendeu a relação entre memória e aprendizagem de uma segunda língua, aproveite para assinar nossa Newsletter e receber conteúdos como este diretamente no seu e-mail!

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